Só existe um único crédito para os jovens comprarem casa

Bancos oferecem vantagens no acesso ao crédito à habitação por jovens. Mas produtos específicos só há um. Antes da crise era diferente.

Os jovens portugueses são dos que saem mais tarde de casa dos pais. Em média, só o fazem aos 29 anos, quase dez anos mais tarde do que os suecos. Mas não é por comodismo. As razões são bem mais terra-a-terra: desemprego jovem elevado, precariedade laboral, salários baixos, a que se somam a fraca oferta do mercado de arrendamento e rendas praticamente incomportáveis. E se pensarem trocar a renda por uma prestação ao banco e arriscar a compra de casa própria, as condições também estão longe de ser acessíveis a todas as bolsas. Em Portugal apenas existe um crédito específico, com spreads mais baixos, a pensar nos mais novos.

“No mercado nacional, apenas o Crédito Agrícola tem um produto específico de crédito à habitação para jovens até 31 anos e que se caracteriza essencialmente pela redução dos spreads aplicados em 0,1% e a possibilidade de financiamento até 100% do valor da habitação”, explica Nuno Rico da Deco, desafiado pelo Dinheiro Vivo a fazer um levantamento das opções existentes no mercado do crédito à habitação para jovens. “Nas restantes instituições financeiras não existem ofertas específicas para este segmento de mercado.”

Nem sempre foi assim. Antes da crise e da chegada da troika, quando havia menor aversão ao risco, os bancos disponibilizavam outros produtos que facilitavam a vida de quem é “seiscentos-eurista”. Havia inclusivamente financiamentos que permitiam uma redução dos spreads aplicados e garantiam ainda a totalidade do valor do imóvel – fenómeno praticamente raro nos dias de hoje em qualquer contrato de crédito à habitação -, com prazos de pagamento que podiam ir até 50 anos.

“No nosso entender, a crise contribuiu de forma muito significativa para esta situação e para o desaparecimento de produtos específicos para jovens”, evidencia o economista Nuno Rico, lembrando que “com o aumento do incumprimento nos créditos, os bancos não só terminaram com estes produtos, como passaram a aplicar spreads mais altos para estes casos, devido ao maior risco associado à operação”.

Apesar de o Crédito Agrícola ser o único banco com uma oferta diferenciada para jovens, existem nos bancos comerciais a operar em Portugal algumas vantagens no crédito à habitação em função da idade e que facilitam os primeiros anos de pagamento do crédito.

A Caixa Geral de Depósitos anuncia o “tríplex, tripla vantagem para jovens” que dá três anos de carência, ou seja, de não pagamento do crédito e reserva 30% do capital para o final do contrato. Além disso, em função de algumas titularidades de contas, permite uma redução dos encargos com registos e notariado. No BiG, os jovens entre 18 e 34 anos podem beneficiar de uma redução de 50% da comissão de processo; no Millennium BCP, há bonificações para clientes prestige até 33 anos com um vencimento mais elevado – 1500 euros/mês.

O Montepio oferece um pacote muito semelhante ao da CGD com três anos de carência e, no Santander as ofertas passam por uma benesse de 0,2% no spread durante os primeiros cinco anos de empréstimo ou ao longo da vida do crédito para descendentes de clientes do banco.

“Não recomendamos carências de capital nem valores residuais porque encarecem o crédito”, alerta Nuno Rico.

Os salários baixos não ajudam. “A contratação laboral não melhorou, há muitos contratos informais que não têm qualquer suporte em papel. Depois, quando chega o final do mês – conheço bem um caso destes – é que se percebe que a remuneração, afinal, é metade do que foi acordada”, diz Sara Simões, dos Precários Inflexíveis.

Ao movimento têm chegado relatos de muitos jovens com dificuldades em adquirir casa, devido às crescentes exigências impostas pelos bancos. Em muitos casos, só a conta bancária dos pais e a longa relação com a instituição financeira permitem a aprovação do crédito. Foi o que aconteceu com M. e R. que, em 2014, optaram pela compra de casa. Tinham um arrendamento que superava os 700 euros por mês, por um T1 em Lisboa e, com um crédito ao banco conseguiram baixar a mensalidade. Mas apesar de ambos terem emprego, ela mais estável que ele, só pela longa relação do pai de R. é que o crédito foi concedido.

A condição de fiador acaba, assim, por ser praticamente a única forma de se aceder a um empréstimo à habitação. “Tal facto estará certamente relacionado com a maior instabilidade profissional e menores rendimentos auferidos pelos mais jovens no nosso país. Portanto, não é comparável à oferta disponível em Espanha”, realça Nuno Rico, da Deco.

No país vizinho, um jovem a ganhar mil euros tem dificuldade em encontrar um bom crédito, mas não é algo impossível. Há bancos que encarecem ligeiramente os empréstimos para jovens, mas não cortaram totalmente a oferta, como em Portugal. Um levantamento feito pelo Expansión encontra cinco hipóteses que, na generalidade, têm spreads reduzidos e exigem, em contrapartida, seguros de habitação ou de vida.

Sara Simões levanta a questão: “Com contratos de trabalho cada vez mais precários, em alguns casos ao dia, como há em Portugal, como é que se dá uma garantia ao banco…?”

fonte: www.dinheirovivo.pt


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